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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Como fabricar um vírus mortal


Para a ciência existe uma regra não-dita de sempre publicar seus resultados primeiro e se preocupar com as consequências depois. Mais conhecimento é sempre bom, certo? A informação quer ser livre.
Mas e se o que você quer publicar é algo realmente assustador?
O tipo de assustador que envolve a morte de milhões de pessoas.
Essa não é uma pergunta retórica, graças a alguns experimentos que já estão em preparação para serem publicados. Vírus do tipo influenza H5N1 – também conhecido como gripe aviária – são matadores eficientes que têm dizimado criações de aves e cerca de 600 desafortunados que entraram em contato próximo com as aves. Mas no Centro Médico Erasmus em Rotterdam, na Holanda, o virologista Ron Fouchier conseguiu criar uma gripe aviária que, diferente dos outros tipos de H5N1, se espalha facilmente entre doninhas – o que é considerado um modelo confiável para determinar a transmissibilidade em seres humanos. E mais do que isso, sua descoberta, financiada pelo Instituto Nacional de Saúde, envolve métodos de tecnologia relativamente simples.
Já se assustou? Você tem bons motivos. Na edição de 2 de dezembro da revista Science, Fouchier admite que sua criação “é provavelmente um dos vírus mais perigosos que você pode criar”, enquanto Paul Keim, um cientista que trabalha com antrax, acrescenta, “Eu não consigo pensar em outro organismo patogênico mais assustador do que esse.”
Agora Fouchier espera publicar os resultados de experimentos que muitos cientistas acreditam que nunca deveriam ter sequer sido feitos. Esse tipo de pesquisa é eufemisticamente conhecido como “de dupla utilização”, o que significa que pode ser usada para o bem ou para o mal. “Se eu fosse um editor e eu recebesse um artigo que explicasse como construir uma arma biológica, eu nunca o publicaria, mas isso seria devido a meu julgamento pessoal, e não a nenhuma restrição do governo”, disse o especialista em bioterrorismo e professor da Universidade de Harvard  Matt Meselson.
Yoshihiro Kawaoka, virologista da Universidade de Wisconsin, cujo laboratório também já publicou métodos para reconstituir um vírus patogênico a partir de sua sequência de DNA, não respondeu à Science, mas quando eu falei com ele, em 2002, ele manteve firmemente que informações de dupla utilização deveriam ser publicadas. À época ele argumentou que receitas para armas nucleares podem ser encontradas até mesmo online, e que se começarmos a censurar resultados potencialmente perigosos, então devíamos também banir facas, armas e até aviões – a arma escolhida pelos terroristas em setembro de 2001.

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